Eleandro Vieira

 

Meu coração está em chamas. Às 10 da noite, às 4 da manhã, ao meio dia, e agora. Tão em chamas que não tenho nem forças para chorar. As lágrimas ficam presas nos olhos, às vezes aparecem de leve, mas não rolam pelo rosto de jeito nenhum. Meu coração está em chamas. Em chamas junto com o coração do Brasil. O que era para ser verde virou cinzas como se a vida nada fosse. Nada é! Cinzas… A cidade de São Paulo escureceu às 03 da tarde. Hoje vi a foto de um tamanduá mirim fugindo das chamas. Um tamanduá mirim cego fugindo das chamas com os braços levantados como se estivesse suplicando ajuda - mal sabe ele que o que mais sabemos é destruir. Eu poderia citar a poesia de Bertolt Brecht, “se os tubarões fossem homens [...] Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo; É o sacrifício alegre de um peixe pequeno; E que todos eles deveriam acreditar nos tubarões; Sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixes pequenos;”, mas não posso. Não posso comparar os tubarões a nós, mesmo com a toda a maestria do poeta e dramaturgo alemão. Os animais seguem seus instintos irracionais naturais de predadores. Nós temos consciência de nosso ato e a nossa irracionalidade perversa e intencional é o que nos torna maus. Tão maus a ponto de defender nossa própria destruição. 

Eu poderia falar aqui que a bacia do Rio Amazonas foi formada há milhões de anos, que possui um rico ecossistema tropical, com 400 bilhões de árvores e que tem uma vegetação tão densa e úmida que chega a ser responsável por 20% do oxigênio da terra, que chega ser responsável pela armazenagem de séculos de emissões de gás carbônico, que um quinto das águas doces passam por seus rios, solos, planta e ar, que sua umidade alimenta os rios voadores, nome dado ao incessante fluxo de água expelida pela floresta e que formam corredores aéreos que levam chuva a várias regiões do Brasil e de outros países como a Argentina e o Meio-Oeste do EUA, mas não sou especialista. Neste momento em que todos os nossos corações pegam fogo, cito uma frase que tenho visto nas redes sociais e da qual me solidarizo: o índio chorou; o branco chorou; todo mundo está chorando; a Amazônia está queimando; os animais estão sofrendo sem culpa. Novamente lembro do tamanduá mirim cego fugindo. Também vi a foto de um tatu queimado vivo. E de um bombeiro dando água a outro animalzinho que não lembro qual. Há esperança? Meu coração está em chamas. Nossos corações estão em chamas. Nosso Coração está em chamas. Os povos indígenas estão em chamas. O mundo está sendo queimando. Me solidarizo também com as palavra do teólogo Leonardo Boff quando diz que estão atacando as bases que sustentam a vida no planeta com um crime anti-vida que deveria ser tratado e julgado como crime contra a humanidade. Nossos bosques - não - tem mais vida. 

Por fim, sento às 22 horas e vinte dois minutos de uma quinta, a janela entreaberta, o vento entra com o cheiro da chuva que acabou de cair. Deito-me para trás na cadeira. O que hei de pensar? “Quando a última chuva que cai começar a queimar; E o sol se tornar nosso medo; E o ar sufocar quando a gente quiser respirar; talvez seja tarde demais pra voltar … (Gaia) santa terra que atura esse pobre animal; (Gaia) que te explora, devora e destrói onde mora; (Gaia) perdão porque a gente só vai entender… Quando te perder” (Gaia - Terra Celta).