Eleandro Vieira

Quanto vale a vida no Complexo do Alemão? Uma bala de fuzil nas costas? Uma menina de oito anos foi morta pelo Estado. Tão longe de nós. Quanto vale a vida de uma menina de oito anos longe de nós? O que nos iguala a ela? Poderíamos perguntar. E responderíamos com toda a certeza: a condição humana!

A humanidade em nós é a mesma humanidade nela. Ela iria estudar, amar, rir, chorar, ter filhos, ter uma casa para morar. Nós amamos, sorrimos, choramos, temos filhos e uma casa para morar. Beijamos a mulher que amamos, brincamos com nossos cachorros, corremos no final da tarde, trabalhamos todos os dias, e sonhamos. Ela não sonha mais. Tudo o que temos e tudo o que fazemos tirado dela por uma bala de fuzil. Quanto custa uma bala de fuzil? Mas tão longe de nós, e ainda dói o peito. Por quê? Pela condição humana. Ela não deveria ser violada. Seu corpo não deveria ser agredido. Muito menos pelo Estado que tem a essencial função, conforme os liberais clássicos da Revolução Francesa, de proteger a vida, a propriedade, e a liberdade, ou seja, garantir os direitos do homem e do cidadão. Ela poderia sair por aí com a sua avó, e andar em kombis sem levar um tiro nas costas por uma bala de fuzil comprada com o dinheiro do povo.

Os direitos do homem e do cidadão transformaram-se em direitos humanos, principalmente com a Declaração de 1948, depois de duas guerras mundiais terem matado grande parte da população mundial, inclusive crianças. Direitos humanos para humanos direitos? Não! Direitos humanos para todos os humanos. A criança judia de 8 anos queimada viva em um forno no Campo de Concentração de Auschwitz, não era uma humana direita para os alemães nazistas da metade do século vinte.

Os direitos humanos surgem para que, independentemente do governante que esteja no poder, sua integridade física, sua liberdade e sua propriedade sejam respeitadas e protegidas, afora os direitos sociais e econômicos que surgem posteriormente. O Estado declara guerra em um território dentro do seu território. Quantos sonhos foram perdidos, quantos beijos deixaram de ser dados, quantas alegrias o mundo deixou de ver, por uma bala de ferro em uma noite que deveria não ter existido. Aqui ninguém é rei, aqui ninguém é Deus. Parece utopia, talvez seja, mas os liberais nós deram uma oportunidade de ouro para nós construímos enquanto sociedade. Mas quanto o Estado pagou em uma bala de fuzil? Talvez seus cabelos cacheadinhos de oito anos de idade não valessem tanto quanto a pólvora e o ferro que atingiram suas costas. Ame o teu próximo como a ti mesmo, Marcos, 12:30-31.

O amor de uns pelos outros. A maior revolução e o maior ensinamento de Jesus na Terra: o amor. Não a aparência de santidade dos Fariseus, mas o amor incondicional ao irmão ou a prostituta que estava condenada a morte pelas pedradas das mãos virulentas de pecadores. Faça somente aquilo que gostaria que fizessem a ti. É a lei universal de Kant, para quem prefere os filósofos. Para quem não gosta de direitos humanos, do amor ou da moral, que reflita um pouco em silêncio e profundamente sobre a função de vivermos em comunidade. Uma menina de oito anos já não pode mais amar ninguém, mas ainda será amada.

Um gatilho, uma bala e a morte. Ela tinha oito anos apenas. Apenas oito anos. A idade de seu filho, a idade que seu filho vai ter daqui a pouco, ou o seu sobrinho, ou o filho do seu vizinho, ou de alguém que você ama. Talvez seu cachos negros não valessem muito neste mundo em que diamantes valem mais que a vida. Em que balas de fuzil valem mais do que a vida. E para você? E para nós? Quanto vale a vida? Quanto vale a vida das Agahtas, Jenifers, Kauês, Vitors, Kauans? Quanto?