Eleandro Vieira

20 de novembro, Dia da Consciência Negra, morte de Zumbi dos Palmares. Palmares foi um quilombo surgido no começo no século XVII em um território que hoje pertence a Alagoas e resistiu quase cem anos e teve como um dos grandes líderes, Zumbi, um título dado a guerreiros na magia e mágica africana. 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

E, depois de 131 anos continuamos na luta com essa juventude, que não corre da raia, a troco de nada, e eu vou no bloco; dessa mocidade; que não tá na saudade; e constrói a manhã desejada, Gonzaguinha ainda canta no rádio, no disco de vinil, na mente de cada manhã que nasce, faça chuva, faça sol. Batuque, cerveja e boteco. E nem vem que não tem, eu vou nesse embalo, vou botar pra quebrar, sacudim, sacundá, sacundim, gundim, gundá! Com Simonal também, mostrando que toda a fúria da beleza black tem ginga, melodia e ritmo.  Batuque, cerveja e boteco. Até porque, cantaria Jorge Aragão, somos herança da memória, temos a cor da noite, filhos de todo açoite, fato real da nossa história. Batuque, cerveja e boteco. Mas, fica ligado que não nos esquecemos do navio negreiro, legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar... Negras mulheres, suspendendo às tetas; magras crianças, cujas bocas pretas; rega o sangue das mães: outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs! Castro Alves. Tinha que ser preto.

Pois o gueto só é real se tiver roendo osso; cadê os neguim que devia 'tá no fundo do poço? e eu sou patente alta, bigode grosso, Emicida embala baladas por esse país afora, mais de 130 anos após a abolição, o chicote continua estalando em salas esquecidas em mercados por um chocolate de cinco reais ou com tiros de fuzil nas costas de uma negrinha em uma kombi lá no Complexo do Alemão, onde os moradores não têm nome, são números. E por falar em números, mais de 70% das mortes por assassinatos são de negros. Tinha que ser preto. Toda a beleza da fúria black nos livros de Carolina Maria de Jesus que me ensinou mais sobre a fome do que Marx, David Ricardo ou Adam Smith. A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. Aprendi com a mulher preta que catava papelão e escrevia para disfarçar a barriga vazia com palavras que cobriam a folha. Tinha que ser preta!

388 anos de escravidão. As marcas que este país insiste em esquecer. As marcas que este país ainda não decidiu curar. Liberdade para quem? 388 anos de castigo, levantando o Brasil nos braços, carregando no lombo, nos gados, nas casas, nuas a força, sem suas mães, trancafiados em senzalas, com os pés acorrentados, sem saber o que é coração e sem vontade de ver o sol nascer outro dia. 388 anos sem um beijo. Sem um beijo e sem sonhar. E sem querer ver o sol. Tinha que ser preto.

Mas, não sem resistência. Zumbi dos Palmares, Maria Adelaide Trindade Batista, comunidades quilombolas. 20 de novembro. Dia da Consciência Negra. Vai ter mais preto sim, na faculdade do que na delegacia. Se eu ao menos soubesse meu verdadeiro sobrenome, meu país, minha terra, se minha carne fosse vista diferente, se o olhar fosse mais inocente, se eu não tivesse que ser forte, nem dependesse da sorte, se antes do diabo que me pintam por ser o que sou, eu fosse pessoa, pessoa antes de mulata, Gabriely Nunes, não teríamos tanto motivo para a luta. Mas Gabriely luta e grita... grita, e grita, e nós gritamos com ela, e com Victoria Santa Cruz. Eu sou negra! negra! Coisas que os livros didáticos não contam, mas vão contar. Pela primeira vez na história os negros são a maioria nas universidades, 50,3%. Nós vamos contar. Tinha que ser preto.

Pelé jogando, Cartola compondo, Milton cantando. Poema de Castro Alves, o samba de JovelinaDjavan,Emicida, Mano Brown, Thalma de Freitas, Simonal. Carolina de Jesus, Garrincha tinhas duas pernas mágicas e negras. Milton Santos, Elza Soares, Mestre Bimba, Anderson Silva. É Magia negra que não acaba mais (Sérgio Vaz).

Tinha que ser preto.