Eleandro Vieira

 

Certa vez uma amiga disse que sentiu uma imensa vontade de dançar com seu pai no ar fresco que cobria a madrugada. Atrás de sua casa há um enorme gramado. Ela sabia que seu pai não iria aceitar tal ideia, exótica. Em um daqueles momentos em que não agimos pela razão - graças a Deus - abriu a porta de casa e dançou com Deus de pés descalços na grama molhada de sereno. Era o momento do espanto. Lembro que uma vez dancei sozinho em um barranco na rodovia que liga minha cidade a outra. Era o momento do espanto, bem na hora em que as luzes encontram as trevas: 19 e pouco. Mas acontecem em outras horas também. A vida dá um reset e as energias são renovadas, o tempo desaparece, e o universo todo é aqui, dentro do peito. Já senti isso olhando uma árvore deserta em uma estrada qualquer a 120 quilômetros por hora. Sentindo os pingos da chuva quando o temporal me pegou desprevenido andando a pé pela cidade. Quando deitei nu com a mulher que amo pegando fogo depois de momentos intensos de amor e de ter sentido o gosto da pele de todo o seu corpo com a boca. Quando um professor me cativou lecionando história política do Brasil às 22 horas de uma sexta-feira enquanto os bares das redondezas enchiam-se de alegria e copo de cerveja cheio na mesa. Quando tomei cerveja de litrão e ouvi Raul Seixas com meu melhor amigo na madrugada de um sábado enquanto todas as pessoas do bairro dormiam, olhando a cidade que parecia nunca mudar. Quando caminhei sozinho pela cidade no inverno tenebroso do sul do país com o vento cortando a pele da minha cara quando todos acobertados assistiam o Faustão. Quando me peguei tomando chimarrão sozinho ouvindo Vitor Ramil no calor de quase 40 suando em meu quarto pequeno repleto de livros e nada mais. Quando minha avó disse que estava com vontade de comer pizza e então eu comprei e comemos. Aquilo era a maior alegria da vida dela, elogiando, criticando, passando ketchup. Chorei em muitos desses momentos quando me dava conta do que estava acontecendo. Era o espanto. O tempo, o espaço, as amarguras, as cicatrizes, as angustias, o passado e o futuro, deixavam de existir. Era como se a filosofia budista da felicidade eterna ou, como eles gostam de chamar, Nirvana, estivesse acontecendo em poucos segundos, em alguns minutos, quem sabe em uma hora, depois tudo voltava a rotina do relógio na parede: tic tac. E olha que eu nem sei meditar. Mas a renovação era grande, como vestir uma roupa limpa depois de um dia inteiro de trabalho, como tomar um banho depois do futebol suado e sentir-se renovado, como um amor correspondido depois de cinco anos de distância. É a hora do espanto. Hora das surpresas vida. Espante-se. De uma hora pra outra, num arregalar de olhos, numa segunda-feira quando a vida parece continuar sempre a mesma. Quanto menos se espera, eu me espanto.