Eleandro Vieira – Historiador e cronista

E disse: Maldito seja Canaã; seja servos dos servos a seus irmãos. E ajuntou: Bendito seja o Senhor, Deus de Sem; e Canaã lhe seja servo. Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo… Noé, incauto, pelado e bêbado deixou-se ver por Cam, depois de uns goles de vinho, e Cam revelou a cena para seus dois irmãos, Jafé e Sem. Noé, por este motivo, amaldiçoou Cam, relegando a ele a servidão peremptória.

O mito bíblico da maldição de Cam é usado para fortalecer a ideia de diferenciação de raças e superioridade de uma em relação a outra, resultando, deste e neste momento, a primeira classificação dos seres humanos: Jafé (branco), Sem (amarelo), Cam (negro). Cam foi amaldiçoado. Na história usaram do mito para justificar a escravização dos negros, arrancados de sua mãe terra África, e largados em vários cantos deste mundo, 12 milhões na América, mais de quatro milhões no Brasil.

Em 1895 uma pintura ganha a medalha de ouro na exposição no Salão de Belas Artes, com o título “A redenção de Cam”. A obra é de Modesto Brocos e retrata uma senhora com cerca de 70 anos negra com os braços levantados para o céu com sinal de agradecimento a Deus, uma mulher parda sentada em uma cadeira com uma criança branca no colo e o marido, branco, sentado à porta. É a redenção. A redenção de Cam. O branqueamento da população brasileira. O bom convívio defendido nas teses de Gilberto Freyre com o termo da democracia racial. A harmonia das três raças (no Brasil incluíram os indígenas) sem existência de conflito, de racismo, de preconceito, de discriminação. O jeitinho brasileiro de viver. A ideia foi tão forte que a UNESCO financiou pesquisas nos anos de 1950 com o propósito de comprovar a existência de um país onde o conflito racial é superado e todos vivem de maneira harmônica como uma escola de samba na sapucaí, em um contexto onde o objetivo era mostrar ao mundo, depois da Segunda Guerra Mundial que mata grande parte da população da Terra tendo como um dos fundamentos as motivações raciais, que essas questões podem ser superadas e que o melhor modelo se encontrava no Brasil. Impressão errada.

Um dos estudiosos convidados para participar do estudo foi Florestan Fernandes, porém os resultados alcançados com uma rigorosa metodologia sociológica, é que a democracia racial, motivo de tanto orgulho para o país, não passa de um mito. O mito da democracia racial. Florestan ainda mostra que o mais característico diante do preconceito racial no Brasil é a tendência de considerá-lo ultrajante para quem sofre e degradante para quem o pratique, porém, atitude mais condenada no plano ideal do que na concretude da ação direta. Um dos terríveis erros talvez seja esquecer o passado e pensar que as coisas se resolveriam por conta própria como num passe de mágica ou com a graça de alguma entidade, que não fosse Oxalá ou Iemanjá, enquanto que a chicotada no coro negro não ficou num passado não muito distante, mas persiste ainda hoje transmutada de outras formas, ainda com a violência característica da dor física, podendo ser vislumbrada sem muito esforço nas telas da TV ou nas redes sociais - 70% dos homicídios no Brasil são de negros.

Ações que se fazem importantes para que o chicote não atinja mais a existência da população negra, são as políticas públicas, algumas já em andamento e que causam uma tremenda modificação social, como à Lei 10.539/2003 que inclui nas redes de ensino a obrigatoriedade da temática da história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares; e a Lei 12.711/2012 que estabelece cotas para o ingresso no Ensino Superior nas instituições federais. O mito da democracia racial, conforme Florestan, não ajuda o branco no sentido de contribuir para diminuição da resistência que impede a ascensão social, econômica e cultural do negro e não o ajuda, impedindo de ver a real situação e a lutar para modificar a sua existência enquanto grupo social. Estratégia de dar inveja a Sun Tzu. Apesar de Florestan escrever nas décadas de 1940, 1950 e 1960, seus estudos merecem muita atenção e valem a pena de serem lidos, é um clássico da sociologia do nosso país.

Mas muita coisa vem mudando, principalmente com a ação dos movimentos negros que se iniciam na década de 1880 e que se modificam ao longo do processo histórico e que forçam a sua inserção nas lutas políticas e sua ocupação em espaços sociais antes negados: Universidades, parlamento, imprensa... Não é um processo fácil e o caminho ainda é longo. Os movimentos negros criaram o que se constitui de uma importância e significância enorme para as mudanças raciais no Brasil: o orgulho e a identidade da negritude que não é mais escondida. Hoje o negro não precisa ter alma de branco e nem quer mais isso. Identidade: título da música interpretada por Jorge Aragão, e que pode ser uma aula de história em pouco mais de quatro minutos de linda melodia: quem cede a vez não quer vitória; somos herança da memória; temos a cor da noite; filhos de todo açoite; fato real de nossa história. O tempo não para e a luta também não.

A história é feita pelos sujeitos e a hora também. Nada é natural nas relações humanas e a construção do mundo depende e é interferida por cada um, nas suas mínimas ações, mas as grandes mudanças acontecem quando a identidade coletiva é adotada como prática nas ações diretas no mundo social, sendo a base e a força motriz para o movimento das estruturas que tendem a estagnar no tradicionalismo de uma época que vê como inadmissível que todos os seres humanos tenham sua cidadania plena alcançada e possam usufruir de todos os seus direitos enquanto detentores da dignidade humana.